Senso numérico
(tópico 1)
Vamos fazer uma experiência.
Observe as figuras :
Onde há mais pessoas?
Agora veja estas figuras :
Em qual dos dois casos foi mais fácil perceber onde
há mais pessoas?
No primeiro bastou uma simples olhada, não é mesmo?
Mas no
segundo, provavelmente, você precisou contar.
Somos capazes de distinguir visualmente pequenas quantidades
(até quatro, cinco...talvez seis objetos). Entretanto este senso
numérico não nos permite distinguir quantidades maiores.
Um fato curioso: alguns animais também parecem ter esta
capacidade de distinguir pequenas quantidades. Sobre isso, há um
caso
interessante relatado por Tobias Dantzig, no livro que indicamos
nas sugestões de leitura. A história é mais ou
menos essa :
Um fazendeiro decidiu matar um corvo, pois este fizera o ninho
na chaminé de sua lareira, impedindo a saída da
fumaça. Por
várias vezes o homem tentou pegá-lo de surpresa, mas sempre
que se aproximava o corvo
fugia.

Um dia o fazendeiro resolveu enganar a ave. Duas pessoas entraram
no galpão próximo à chaminé e, depois de algum
tempo,
apenas uma saiu. O animal não se deixou enganar: fugiu e só
voltou ao ninho
após a saída do
segundo homem.
A experiência foi repetida nos dias seguintes, com três
e, depois, quatro pessoas. Não adiantou: a ave só voltou ao ninho
depois da saída de todos.
Finalmente, com cinco pessoas, o corvo "perdeu a conta". Não
percebendo a diferença entre cinco (que entraram) e quatro (que
saíram) ele voltou ao ninho assim que o quarto homem se retirou. Pobre
corvo! Passou
desta para melhor!
E as crianças? Será que elas têm senso
numérico
como o corvo da história?
Em crianças pequenas, de 2 ou 3 anos de idade, o senso
numérico, às vezes, é menos desenvolvido do que o do
corvo. Entretanto essa
percepção limitada é o ponto de partida para o
desenvolvimento da noção
de número. Essa noção, que se desenvolve na mente da
criança e que os
animais não têm, está vários passos à
frente do senso numérico.
O desenvolvimento da noção de número depende
das
experiências
que são vividas pela criança. Mas atenção:
Nem todas as crianças vivem as mesmas experiências e, às vezes, encontramos crianças
de 5, 6 ou mesmo 7 anos que não têm uma noção adequada de número.
Há crianças que escrevem os números e os recitam
até trinta ou quarenta. Apesar disso, se você pedir que elas tragam cinco
lápis, elas não acertam.
Isto quer dizer que, na verdade, essas crianças não
entendem
os números.
É possível ajudar as crianças a formar a
idéia de número,
mas não devemos nos iludir: somente explicações
não levam a criança à
noção de número.
Pense em um treinador que ensina um menino a jogar futebol
da seguinte maneira: ele explica o que é drible, trave, gol, chute
etc; faz o menino decorar tudo isso e depois manda o menino jogar
e marcar gols.
Será que o menino vai jogar bem?
Só com explicações, é quase
impossível. Aprende-se a jogar
futebol jogando, tendo contatos, experiências com a bola, o campo,
os companheiros, o adversário. Só depois é que as
explicações do
treinador podem ser úteis. Podem contribuir para desenvolver o
conhecimento sobre o jogo e, talvez, até transformar o aprendiz em
craque.
Com as crianças e os números acontece a mesma coisa.
Para entender bem os números, as crianças precisam ter vivido
certas experiências. Só depois disso que os nossos ensinamentos
serão úteis.
A criança começa a formar a idéia de
número a partir de
situações que envolvem quantidades. A criança pode
viver
essas situações
em casa ou brincando com amigos, antes mesmo de ir à escola. Mas
existem crianças que nunca passaram por essas
situações.
Por isso, antes de ensinar a escrever números e a contar,
devemos criar situações para o aluno ter experiências
com
quantidades.
Mas, como são essas experiências com quantidades?
Veja no próximo tópico (experiências com
quantidades)
(tópico 2)
Em classe, a todo momento, surgem situações que
permitem
às crianças terem experiências com quantidades.
Por exemplo, você tem quatro lápis na mão e
vai
distribuí-los
a um grupo de cinco alunos.
Você pode perguntar :
- Vejam quantos lápis tenho. Será que posso dar um
lápis para
cada aluno?
Se os alunos tiverem dificuldades para responder, você os
ajuda um pouco:
- Vamos ver. Quem fica com este lápis? E quem fica com este
outro?
Desta forma você leva as próprias crianças a
fazerem
a distribuição.
No final elas percebem que falta um lápis.
Nesta situação, as crianças podem comparar
quantidades. Comparam
a quantidade de lápis com a quantidade de crianças do grupo e
podem
perceber
que há mais crianças do que lápis. Elas conseguem
fazer isso
sem usar
números.
A partir de experiências como esta, trabalhando com
quantidades,
é que as crianças, pensando sobre a situação,
vão construindo a idéia
de número.
Vamos ver outro exemplo. Diante dos livros e cadernos empilhados
você pergunta:

- Olhem! Há mais livros ou mais cadernos?
A resposta a essa pergunta pode não ser tão
fácil
para as crianças.
Elas podem achar que há mais livros porque eles formam uma pilha
mais alta.
É uma opinião razoável: mostra que elas têm um
critério para responder.
No entanto, elas estão confundindo a quantidade de
cadernos
com o tamanho da pilha de cadernos. Como vão perceber que
quantidade
e tamanho são coisas diferentes?
Primeiro, deixe que as crianças espalhem os livros e
cadernos,
mexam nos objetos e percebam como eles são.
Se as crianças ainda
não descobrirem que há mais cadernos, você coloca lado
a lado um livro para cada caderno.
Então
ficará visível que sobra um caderno.
Fazendo isso, as crianças podem compreender melhor o que
é
quantidade
e perceber a diferença entre o tamanho da pilha e a quantidade de
cadernos.
É mais um passo para a formação da idéia de
número.
Muitas situações podem ser aproveitadas. Vejamos
mais alguns exemplos:
você pode pedir a um aluno que pegue os pratos da merenda na
quantidade certa (um prato para cada aluno). Pode perguntar :
-Tenho o bastante para todos os alunos?
Você também pode fazer uma pergunta do tipo:
- Há mais meninos ou mais meninas na classe?
Em todos esses momentos, estamos proporcionando experiências
com
quantidades
e ajudando as crianças a formarem a idéia de número.
Tente imaginar quantas situações assim você
pode
criar em sua sala
de aula e anote-as. Faça uma lista quando você estiver
preparando sua
aula
de matemática.
Entretanto, atenção para o seguinte: devemos
auxiliar as
crianças
mas não responder por elas. Elas devem usar a própria
cabeça.
A idéia de
número não se explica. Ela vai se formando, pouco a pouco,
dentro de
cada
criança.
Tudo o que dissemos sobre as experiências com quantidades
pode
ser feito todo dia, um pouquinho por dia. Se você percebe que os
alunos
resolvem facilmente os problemas propostos, esse período inicial
pode ser
mais curto. Caso contrário, você propõe maior
número de
experiências.
Veja, agora, uma situação interessante que uma
professora inventou para desafiar suas crianças. Elas já tinham tido
experiências
com quantidades, mas o novo desafio era mais complicado. Nesse caso, elas não tinham
duas quantidades para comparar. Tinham uma só e tiveram que descobrir a
outra.
A professora dividiu a classe em grupos de quatro, cinco ou seis
alunos, deu um punhado de feijões para os grupos e disse:
- Vocês vão fazer os feijões falarem!
As crianças ficaram espantadas, mas a professora continuou
:
- Os feijões têm que dizer quantas crianças
têm
neste grupo. Vocês
não devem falar. Em vez disso, devem me mostrar os feijões. E
eu,
vendo os
feijões tenho que saber quantas crianças estão no
grupo.
A professora ficou esperando. As crianças tinham
dúvidas e
fizeram
perguntas. A professora repetiu a explicação com outras
palavras.
De repente, uma aluna, que estava em um grupo de cinco, teve uma
idéia.
E logo mostrou cinco feijões para a professora.
- Como você descobriu?, perguntou a professora.
A menina colocou um feijão na frente de cada
criança, isto é,
"casou" um feijão com cada criança, fazendo uma
correspondência um-a-um.
Seus colegas logo entenderam a idéia.
Essa idéia de corresponder um-a-um, é muito
importante na
matemática.
Na situação que acabamos de ver, ela permitiu às
crianças obterem uma quantidade
de feijões igual à quantidade de pessoas.
Mesmo sendo importante, não precisamos explicar o que
é
essa correspondência
às crianças. Basta que elas percebam a idéia e a usem.
Isso
é importante
para que elas possam entender os números. As crianças da
história dos
feijões percebiam essa correspondência. Quando a professora
começou a trabalhar
com os números, elas aprenderam bem depressa.
(tópico 3)
Há outras experiências vividas pelas crianças que ajudam a
adquirir a noção de número.
- Mostre um colar de sementes ou de contas, como este:

- Veja que as sementes estão organizadas, que elas têm uma
ordem.
- Discuta com a classe que ordem é essa: uma semente branca, duas
pretas, etc.
- Peça que os alunos façam ou desenhem colares com ordens
diferentes.
- Podemos reorganizar os alunos na classe, formando fileiras
por ordem de tamanho, com os menores à frente.
- Discuta com a classe como foi organizada a fileira. Por que
é bom que os menores fiquem à frente?
- Conte a história das formiguinhas que viram o
açúcar e foram
comê-lo, bem organizadinhas.
- Desenhe na lousa como era o batalhão de formigas:

- Discuta a organização: em cada fileira o número de formigas
aumenta.
Aumenta quanto? Será que os alunos podem desenhar as três
próximas
fileiras?
- As três últimas situações apresentadas
envolvem a noção de ordem
que também está envolvida no conceito de número.
- Podemos trabalhar com fichas coloridas, combinando, por exemplo,
que 10 fichas amarelas podem ser trocadas por uma azul (que equivale a uma
dezena).Veja, por exemplo, como esse material pode ser usado para representar
23 :
- Peça que as crianças identifiquem, entre duas quantidades,
qual é a maior, como por exemplo :
- Quanto é maior? Por quê?
- Discuta com as crinças quando seria necessário usar uma
ficha
de outra cor; por exemplo, fichas vermelhas.
- A última situação apresentada envolve a
noção de agrupamentos
e trocas, pois, como vimos na lição através dos exemplos do
pacote grande
de fósforos e da contagem dos ovos por dúzia, é mais
fácil contar grandes
quantidades quando agrupamos as coisas.
- O trabalho com agrupamentos e trocas leva as crianças à
noção de
base de um sistema de numeração.
(tópico 4)
Após entender os números, o passo seguinte, para as
crianças,
é aprender a representá-los. Para tal, é necessário
que utilizem
símbolos. Entretanto, antes de começar a ensinar a escrita
dos números,
é importante trabalhar um pouco com as crianças o uso dos
símbolos.
Pode-se pedir que inventem símbolos para representar coisas,
acontecimentos,
emoções de seu dia a dia, como por exemplo, um dia ensolarado,
alegria etc.
É interessante que se converse com as crianças sobre os
símbolos
que inventaram, comparando as diversas propostas e perguntando se conhecem
outros símbolos. Como exemplos, podem ser citados símbolos de
canais de
televisão, de trânsito, a bandeira e outros.
Uma criança que já tenha passado pelas experiências
descritas
anteriormente e entendido os números poderá inventar
símbolos para
representá-los, sem que nenhum ensinamento lhe seja dado.
Um símbolo pode ter ou não semelhança figurativa
com
a coisa
que ele representa. Em geral, ao serem inventados pelas crianças, os
símbolos dos números indicam a própria quantidade, como os
povos antigos
os representavam. Assim, por exemplo, para representar os números um,
dois, três, quatro, etc, uma criança poderá fazer
risquinhos: / // /// ////.
Neste momento, a criança já está preparada para
aprender os símbolos que utilizamos atualmente para representar os números. No
entanto, devemos ter ainda alguns cuidados.
Em primeiro lugar, como já vimos na lição, quem
conta, conta
alguma coisa, portanto, não faz sentido começar a ensinar a
escrita dos
números pelo zero, pois este não representa quantidade. O
símbolo para
o zero só deve ser ensinado depois que as crianças já sabem
representar os
nove primeiros números, a partir do um.
Em segundo lugar, é muito importante que o ensino da escrita
do número dez e de seus sucessores não seja precipitado, pois, da
mesma
forma que diversas atividades e experiências podem ser propostas para
que as crianças primeiro entendam os números de um a nove, para
só depois
representá-los, é preciso que elas participem de
outras experiências
e façam novas atividades que as ajudarão a compreender a escrita
dos
números a partir do dez. Um bom recurso para isso é o uso do
ábaco,
pois ele materializa as duas principais características do nosso sistema
de numeração: o caráter posicional e a base dez.
(tópico 5)
A construção de um ábaco simplificado é
muito fácil e barata,
podendo ser feita pelas próprias crianças. A base do ábaco
pode ser um
pedaço de isopor, ou de qualquer material semelhante, como, por exemplo,
uma caixa de ovos. As casas do ábaco podem ser varetas, espetinhos de
churrasco ou pedaços de arame grosso, que serão espetados na base.
As "contas" do ábaco podem ser arruelas, argolas de
plástico,
tampas de garrafa de refrigerante furadas no meio, ou mesmo macarrão do
tipo "argolinha".
É importante que cada criança construa o seu ábaco
para, em
seguida, participar de atividades que envolvam contagens e a
representação escrita dessas contagens.
A princípio, essas contagens não deverão superar a
quantidade
nove, a fim de que a criança fixe bem a escrita dos nove primeiros
símbolos. Para tal, sugerimos que se usem cartõezinhos numerados de 1 a 9,
juntamente com o ábaco, de modo que a quantidade representada
no ábaco tenha o seu correspondente símbolo escrito no
cartão.
Vejamos, por exemplo, a situação que representa a contagem de cinco
coisas:

Ao contar dez coisas, a situação do ábaco pode ser
esta:
No entanto, a criança não encontrará o
símbolo para esta
quantidade.
Podemos sugerir, então, que as crianças troquem as
dez
bolinhas da primeira vareta por uma, que será colocada na
segunda vareta, representando uma dezena. Neste momento, deve
ser introduzido o cartão com o símbolo zero, que
indicará a
casa vazia do ábaco, pois ao trocarmos dez unidades por
uma dezena, não sobra nenhuma unidade na primeira vareta.
Continuando esse processo, a próxima unidade contada
deverá ser representada por uma bolinha colocada na primeira vareta
do ábaco, e a situação será assim representada pelos
cartões:
Prosseguindo com outros exercícios desse tipo, a criança
vai percebendo que a escrita dos números corresponde à
situação
representada no ábaco.
Depois de várias atividades de contagem, podemos propor
dois tipos inversos de exercícios: a uma quantidade representada
no ábaco, a criança deverá fazer corresponder sua respectiva
escrita e, a um número representado por escrito, mostrar a situação
correspondente no ábaco.
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