Robert Andrews Millikan
Nenhuma descoberta
promoveu tanto o avanço da ciência deste último século
quanto à dos constituintes atômicos. Conhecer e entender as chamadas
partículas subatômicas como elétrons e prótons
foi fundamental para o desenvolvimento da química moderna, da eletrônica
e mesmo da biologia. Dentre as fascinantes descobertas neste ramo está
a da carga do elétron. A carga elementar, como é referida, revolucionou
o conhecimento da natureza atômica da matéria e deu à
eletricidade uma personalidade única e especial. O protagonista principal
neste campo foi o americano Robert Andrews Millikan.
Millikan nasceu
em 22 de março de 1868 no estado de Illinois, EUA. O convívio
com seus irmãos, seu avô e seus pais que tinham a mente aberta,
ensinou-lhe a importante arte de arranjar-se sozinho e a amar a vida simples.
Na autobiografia de percebe-se como foram inesquecíveis esses anos
serenos de sua infância.
Passou a juventude
em Maquoketa no estado de Iowa, onde concluiu seus primeiros estudos. Ingressou
depois no Oberlin College, no qual veio a ser suplente no ensino da física.
Millikan fez do magistério o início de uma carreira que o levou
ao Prêmio Nobel de Física.
Fortes razões
levaram-no a aceitar o cargo de professor suplente de Física que lhe
foi oferecido quando estudava no Oberlin College. Uma foi financeira: o salário
era o maior que já recebera. Anteriormente, havia trabalhado como
repórter e como operário em uma fábrica. Outra razão
foi a afirmação de seu professor de grego, de que seu bom comportamento
como aluno lhe permitia seguramente ter êxito também ao lecionar
Física. Não era exagero do professor: dedicando as férias
ao estudo da nova matéria, Millikan descobriu que "a Física
se ensinava sozinha". Tal descoberta fez com que ele se apaixonasse pela
ciência.
A Física
moderna é caracterizada pelos grandes progressos alcançados
graças à construção de diversas teorias a partir
da possibilidade de, no plano experimental, verificar os fatos que as conclusões
que essas teorias prevêem. Essa verificação experimental
é, às vezes, muito difícil. Se Millikan tivesse nascido,
por exemplo, no tempo de Galileu Galilei, disporia apenas de processos primitivos
e artesanais para a técnica experimental necessária: não
poderia sequer medir a pressão do ar, por não dispor de bom
vidro e de chama quente o bastante para modelá-lo num barômetro.
Mas, nesses
tempos, a intuição e os poucos meios de laboratório eram
suficientes para o alcance reduzido das indagações que se ofereciam;
as descobertas, mesmo as mais importantes, nasciam mais da intuição
que do laboratório. Hoje os problemas que se apresentam aos cientistas
são muito mais complexos e exigem o desenvolvimento de técnicas
que facilitem o aprofundamento das pesquisas.
No princípio
do século XX, muitos cientistas dedicaram-se à obra sistemática
de medir as constantes naturais mais importantes - a carga do elétron,
características espectroscópicas dos átomos, velocidade
da luz, etc - para que o conhecimento do mundo físico constasse, além
da teoria, de um bom conjunto de dados e números. Para se ter idéia
da importância dessa tarefa, basta dizer que, embora seja entusiasmante
a determinação teórica de como se dispõem os
elétrons e o núcleo dentro do átomo, só a comprovação
prática através da pesquisa da disposição de
todos os elétrons em todos os átomos é que faz a descoberta
científica utilizável na prática. A constatação
experimental torna suposições em realidade.
Foi nesse setor
de trabalho que Millikan retribuiu à sua época as oportunidades
e os estímulos que ela lhe proporcionou: com Albert Michelson, na pesquisa
física, e George Hale, na astronômica, formou o célebre
trio que se destacou nos EUA da época, sobretudo no desenvolvimento
de técnicas experimentais.
Após
lecionar no Oberlin College durante os anos de 1891 a 1893, Millikan inscreveu-se
na faculdade de Física de Columbia, disposto a aprofundar seus estudos
e a obter a graduação. Nesse período foi ajudado pelo
professor Ogden Rood, que o assistiu em suas pesquisas sobre a polarização
da luz emitida por um corpo incandescente, das quais resultou uma ótima
tese, premiada dois anos depois.
Em 1895, Millikan
consegue a graduação, e surgem novas dificuldades financeiras:
não obtém um cargo fixo em Columbia, por não haver nenhuma
vaga disponível e, então, é aconselhado por Pupin, professor
da Universidade, a obter uma bolsa de aperfeiçoamento em Física
na Alemanha. Pupin, sabendo que mesmo o melhor dos conselhos é inútil
se não há meios para segui-lo, nem aguardou a concessão
da bolsa de estudo: deu 300 dólares a Millikan para que ele partisse.
Não era
muito dinheiro, mas, na Europa, além de freqüentar as Universidades
de Berlim e de Gottingen, Millikan manteve contato com todos os grandes físicos
do continente. O esforço era compensado: a Física vivia um
momento de progresso excepcional, com a descoberta dos raios X, da radioatividade,
do elétron e do quantum de radiação, que descortinava
perspectivas de cuja existência nem se podia suspeitar antes.
Quando Millikan
já gastava seus últimos dólares, recebeu um telegrama
convidando-o a trabalhar como assistente do Professor Michelson, com quem
estudara em Chicago, no ano de 1894. Oportunidade rara tão desejada
que ele só não aceitou imediatamente porque não tinha
como voltar. Seu pouco dinheiro, contudo, permitiu-lhe ir de trem até
Londres. Valendo-se de sua simpatia, acabou encontrando um capitão
de navio mercante disposto a transportá-lo a crédito. O capitão
não se arrependeu: Millikan pagou-lhe tão pontualmente quanto
restituíra ao Professor Pupin, acrescidos de 7% de juros, os 300 dólares
emprestados.
O professor Michelson
Em Chicago,
dedicou seus primeiros anos às pesquisas para a determinação
da carga do elétron e a organização de cursos e textos
para o ensino universitário. Elaborou um novo sistema didático
baseado, sobretudo, nas pesquisas e experiências de laboratório,
das quais fazia participar os estudantes, no início como assistentes
e, depois, como colaboradores. Se hoje pode ser considerado relativamente
fácil, no início deste século medir a carga do elétron
parecia praticamente impossível.
A partir de
1906, iniciou pesquisas para determinar a quantidade de carga elétrica
num elétron. Para tanto, analisou o comportamento que gotículas
de água com carga elétrica manifestavam quando submetidas a
duas influências simultâneas no interior de uma câmara fechada:
a da gravidade e de forças elétricas conjuntas.
Essas forças
elétricas eram muito fortes e a nuvem de vapor d'água desaparecia
rapidamente, mas Millikan fez desse problema uma vantagem: quando o campo
elétrico era ligado, gotas individuais se mantinham visíveis.
Se fosse possível fazer medições dessas gotas, os efeitos
dos elétrons individuais poderiam ser determinados. Uma idéia
brilhante, mas com um problema: a água se evapora!
Sendo assim,
ele substituiu a água por gotas de óleo, que não se evaporam.
Contando agora com um aparelho capaz de produzir uma névoa de óleo,
Millikan mostrou-se cada vez mais confiante de que a carga elétrica
de um elétron podia ser medida com precisão.
A essência
da experiência é aplicar um campo elétrico a uma gota
de óleo carregada com eletricidade. Em seguida, analisar o resultado
utilizando a equação de Newton: F = m a. A massa da gota
vezes a aceleração é igual à soma de todas as
forças que agem sobre ela. Mas que forças agem em uma gota
de óleo em movimento de queda? A força da gravidade, é
claro, e o efeito da viscosidade do ar.
Com auxílio
de equações adequadas, Millikan determinou a velocidade constante
de queda de cada gota e assim, pode determinar o tamanho de cada uma delas,
que eram muito pequenas, mesmo vistas através de seu telescópio.
O que Millikan viu assemelhava-se a um ponto de luz, que não podia
ser visto com sua forma esférica.
Aparato experimental para a determinação da carga do elétron
no Laboratório de Ensino
do Instituto de Física de São Carlos.
A experiência
foi projetada com minúcia de detalhes. Para reduzir ao mínimo
a turbulência sobre as gotas de óleo que caíam entre placas
paralelas, uma pesada panela de ferro foi projetada para conter e proteger
as placas. O ar era filtrado com lã de vidro antes de entrar no vaporizador
que deveria lançar a mais fina nuvem de gotas de óleo na câmara.
Mesmo a luz que iluminava as gotículas foi pesquisada: uma solução
de sulfato de cobre e um tubo de água de um metro de comprimento deveriam
remover o excesso de calor produzido pela luz.
O aparato experimental de Millikan
Durante horas
ele observou através de seu telescópio o que acontecia dentro
da câmara. À medida que adquiriam mais carga, as gotículas
sofriam variações em seu movimento de queda, chegando a deter-se
ou até reverter seus movimentos. Muitas e muitas vezes, ele observaria
a subida e a descida da gotícula.
Esquema do aparato experimental
Para escrever as equações de forças para
uma gota de óleo temos que considerar 3 situações:
(A) Queda livre sob ação da gravidade.
(B) Campo contrário – Um campo elétrico aplicado exerce uma força contrária à gravitacional.
(C) Campo a favor – O campo elétrico aplicado possui o mesmo sentido da gravidade.
A partir dessas 3 situações é possível
deduzir as seguintes equações:
Com essas equações é possível determinar a carga do elétron (q).
Centenas de
medidas foram obtidas, registradas e analisadas para produzir a medição
mais precisa da unidade fundamental de carga elétrica. O valor final
publicado foi:
Esse trabalho
foi o último estudo necessário para provar definitivamente que
a eletricidade possuía natureza corpuscular.
A segunda contribuição
de Millikan para a Física foi demonstrar serem verdadeiras as equações
deduzidas teoricamente por Einstein para explicar o efeito fotoelétrico.
O valor da constante de Planck também foi por ele determinado experimentalmente,
confirmando o previsto pelos cálculos teóricos.
Estes resultados,
fundamentais para a Física, levaram Millikan à notoriedade mundial
e ao Prêmio Nobel de 1923. Mas já em 1913, merecera o prêmio
da Academia Nacional de Ciências dos EUA pelos estudos sobre a carga
do elétron apresentados ao congresso de Winnipeg, sendo convidado
em 1914 a integrá-lo.
O valor da constante
de Planck também foi por ele determinado experimentalmente, confirmando
o previsto pelos cálculos teóricos; a valência dos átomos
na ionização de gases; os limites do espectro da radiação
ultravioleta; as características de absorção de raios
X por diversos elementos; a tensão necessária para provocar
a descarga elétrica sob alto vácuo segundo a natureza das superfícies
dos eletrodos; o movimento browniano e a propulsão por foguetes foram
outras pesquisas que ocuparam a vida de Millikan. Estimulado pela amizade
com o astrofísico George Hale, dedicou-se ainda à espectroscopia
e, durante a I Guerra Mundial, estudou sistemas de armas para a marinha e
aeronáutica.
Em 1921, após
25 anos de colaboração com Michelson, Millikan trocou a cátedra
de Chicago pela direção do laboratório de Física
do Caltech California Institute of Technology, onde estudou os Raios
Cósmicos, denotação que ele também criou. Em sua
opinião, eles eram uma forma de radiação eletromagnética,
semelhante aos raios gama, porém mais intensos. Outros pesquisadores
mostrariam, mais tarde, que eles possuíam natureza corpuscular.
Tal foi sua
dedicação, que em poucos anos se tornou o maior conhecedor mundial
do assunto: para estudar sua intensidade e seu poder de penetração,
chegou a organizar expedições científicas aos Andes Bolivianos,
à Índia e à Tasmânia.
Robert Millikan
morreu a 20 de dezembro de 1953, em San Marino, Califórnia. Tinha 85
anos de idade. Deixou uma obra de organizador e educador, que demonstra o
entusiasmo e a energia infatigável com que empreendia todas as suas
tarefas. Millikan via no universo e nos eventos humanos a manifestação
de uma inteligência superior. Afirmava que o único fundamento
válido para o conhecimento racional consistia na combinação
do espírito do físico com o do religioso.
O nome de Millikan
tornou-se e permanece ainda hoje, um sinônimo de progresso científico.
Na primeira metade do século XX, sua imagem junto com a de Albert Einstein
era a do mais famoso Físico da América do Norte.
Da esquerda para a direita: Albert Michelson, Albert Einstein e Robert
A. Millikan
desenvolvido por:
Carlos Alberto Sozza
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