O QUE SE ENTENDE POR EDUCAÇÃO AMBIENTAL?


Maria Guiomar Carneiro Tomazello

Este ano, precisamente na segunda semana de outubro, faz 20 anos que aconteceu na cidade de Tbilisi, na Georgia, a I Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental. Durante esta Conferência, estiveram reunidos cerca de 300 especialistas, representantes de 68 países do mundo e de vários organismos internacionais. As Recomendações da Conferência se converteram em uma referência indispensável para as instituições e pessoas preocupadas com a educação. Os objetivos da Educação Ambiental estabelecidos neste encontro foram: a) favorecer a compreensão e preocupação da interdependência econômica, social, política e ecológica nas áreas rurais e urbanas; b) oferecer a todas as pessoas a oportunidade de adquirir os conhecimentos, valores, atitudes, compromissos e capacidades necessárias para proteger e melhorar o meio ambiente; c) crias novas normas de conduta em indivíduos e grupos e na sociedade em geral, em relação ao meio ambiente.

A partir da Conferência de Tbilisi muitas outras reuniões aconteceram em que estes objetivos foram reiterados. Na Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992, os especialistas relacionaram a Educação Ambiental com os problemas mais preocupantes do desenvolvimento humano, dedicando um capítulo da Agenda 21 para ressaltar a importância da mudança de hábitos da população, principalmente nos países mais ricos. Os encontros tanto nacionais como, sobretudo, internacionais que se organizaram a partir da RIO 92 adotaram definitivamente os aspectos ligados ao desenvolvimento sustentável e a uma ética em relação ao ambiente.

É interessante observar a evolução das concepções ambientais sofridas ao longo deste século. Em um primeiro momento, prevalecia a idéia de conservação do ambiente com um forte componente estético. Já, na década de sessenta, a proteção ao ambiente se fazia vinculada à qualidade de vida, tendo como princípio, o bem estar. O momento atual tem como valor social a preservação da natureza sendo que o desenvolvimento sustentável exige uma aproximação com a ética.

Existem diversas formulações sobre o significado de Educação Ambiental. Há porém, uma caracterização, formulada por Arthur Lucas, que distingue educação sobre, no e para o ambiente.

Educação sobre o ambiente compreende ações ou atividades educativas que têm como objetivo proporcionar informações e formação sobre o meio ambiente e relações que se dão no mesmo. Seus objetivos incluem a compreensão cognitiva das interações entre os seres humanos e seu meio. Como exemplo de atividade sobre o ambiente teríamos a análise da influência das atividades domésticas e industriais de uma cidade sobre a qualidade da água da região, estudo das relações entre vegetação e solo, adubação, plantio de mudas, efeitos do aterro sanitário sobre as águas subterrâneas, entre outros.

ducação no ambiente toma o meio físico como recurso didático sendo que as atividades são realizadas fora da sala de aula, como por exemplo, estudo de campo para conhecer os diferentes tipos de solo e de rochas, análise da erosão do solo, trilhas ecológicas para observação de plantas e animais, visitas a zoológicos e a jardins botânicos, entre outros.

Educação para o ambiente tem como objetivo a conservação e a melhoria do meio. Lucas afirma que, ainda que se possa supor, que o objetivo final da educação para o ambiente é conseguir mudanças de atitudes, estas não serão efetivas se não vierem acompanhados de mudanças de comportamentos. Segundo pesquisadores, educação para o ambiente deveria incluir como objetivo, ao se estudar a contaminação de um rio, por exemplo, a tomada de decisões e opções para diminuir essa contaminação tanto no âmbito pessoal - o que posso e devo fazer enquanto cidadão- como desde o coletivo - estar atento a acompanhar as decisões das instituições responsáveis.

A primeira impressão é que atitude e comportamento têm o mesmo significado, porém, ter atitudes favoráveis sobre o meio ambiente nem sempre implicam em comportamentos responsáveis. Atitude é entendida como tendência a querer atuar de uma forma determinada diante de um tipo de situação, enquanto que comportamento, é entendido como atuação concreta. Os comportamentos são expressos por hábitos e costumes que muitas vezes dificultam ações mais positivas frente a diversos problemas ambientais.

Muito se fala hoje sobre educação ambiental e sobre projetos de educação ambiental, mas, na maioria das vezes são apenas atividades sobre o ambiente e no ambiente. Só podemos falar de educação ambiental quando existe a componente para, ou seja, quando entre as finalidades do programa se encontram a melhoria e a conservação do ambiente, com mudanças de comportamento. É claro que é possível muitas combinações entre os três componentes, sobre, no e para o ambiente, além do que, é muito difícil avaliar a adequação de um projeto de educação ambiental pois os resultados de um processo educativo não são conseqüência de uma só atividade mas de uma ação prolongada ao longo de anos. Algo que se ensina em uma determinada época e em um determinado contexto pode influenciar o comportamento de uma pessoa em um outro e inesperado momento.

Apesar das dificuldades de análise das repercussões de um projeto ou de atividades de Educação Ambiental, o estudo do meio não pode ter como objetivo só a aquisição de conhecimentos mas envolver todo um conjunto de novos comportamentos que levem a compreender e proteger o meio.

Estas reflexões nos levam a considerar que a educação de atitudes e de comportamentos exige o planejamento de atividades específicas de aprendizagem inter-relacionadas com a aprendizagem de conhecimentos, porém, com características próprias.

Uma outra característica das atividades consideradas como de educação ambiental, geralmente desenvolvidas em nossas escolas, é o fato delas serem desvinculadas da sala de aula, à margem dos programas das diferentes disciplinas. São comuns as exposições sobre meio ambiente, semanas do meio ambiente, semanas da água, reciclagem de lixo e de papel, plantio de mudas, plantas medicinais, hortas, etc.

Estas atividades pontuais, de certa forma, contrariam os princípios de orientação da Educação Ambiental estabelecidos em Tbilisi pois não consideram o ambiente em sua totalidade, ou seja, em seus aspectos naturais e criados pelo homem, tecnológicos e sociais (econômico, político, técnico, histórico-cultural, moral e estético) além de não aplicarem um enfoque interdisciplinar, aproveitando o conteúdo específico de cada disciplina, de modo que o aluno tenha condições de adquirir uma perspectiva global e equilibrada sobre o ambiente.

Dentro de uma nova proposta curricular, a educação ambiental vem sendo apresentada como um tema transversal, isto é, não está associada a nenhuma disciplina específica mas deve estar presente em todas as áreas do conhecimento.

Uma das primeiras dificuldade é analisar o que se entende por tema transversal. Segundo Neus Sanmarti, educadora e pesquisadora da Universidade Autônoma de Barcelona, pode-se considerar dois modelos: modelo "espada" onde um tema transversal, como uma espada, atravessa todas as áreas curriculares, porém, com o inconveniente de atingir somente determinadas partes do currículo e o modelo "infusão", fazendo uma analogia com infusões que se distribuem por um líquido (o currículo) de maneira a formar uma solução homogênea . Da mesma maneira que não se bebe um líquido que não contenha parte das substâncias dissolvidas não se deveria trabalhar nenhum conteúdo curricular que não estivesse impregnado de conteúdos transversais.

Numa perspectiva mais integradora e de educação sustentável não se pode pensar em educação ambiental sem relações com as "outras educações" : educação dos direitos humanos, educação para o desenvolvimento e educação para a paz.

Concordando com Ramón Folch, educador espanhol, "a educação ambiental se tornou em algo eficazmente subversivo".

Maria Guiomar é Professora do Departamento de Física e Coordenadora do Núcleo de Educação em Ciências da UNIMEP


Página elaborada por Peterson Guerreiro Fernandes